terça-feira, janeiro 16, 2007
39.Elena é velha e Inês é morta.
Elena vidi, per cui tanto reo tempo si volse...e mais passa que volta pensa Luis. Milhares de anos. Milhares de historias. E sempre restaremos, nós outros, os mesmos com a gravidade da repetição, fazendo a tragédia não ser mais que a dupla ligação de oxigênio nalgum carbono do ácido. Feia abaixa a mão, de cigarro entre dedos, afastando a do corpo, enquanto o cotovelo cola-lhe à cintura a outra mão afofa o cabelo, com um requebro mole que subiu das pernas até a cabeça e esta ficou tombada sobre seu ombro despojado, disse:
Hei você!
Eu? Disse Luis surpreendido.
Sim você que gosta de dançar.
Gosto, mas não sei.
Ninguém sabe, todo mundo imita todo mundo. Sim?
Sim! Claro. Se não precisa saber é comigo mesmo. Mas, essa música não é para dançar.
Deixe de ser tolo, música é para se ouvir, nós é que dançamos.
É verdade, agora pensando bem acho que a música enquanto se dança é para não ficar se perdendo em diálogos inúteis. Estou pronto para o uso.
Parece que você está... Chega de conversa, embora dançar! Vem!
...Porém parece que há golpes de p de pé de pão...
-Como é teu nome?
- Inês!
- Inês?
- Sim. Inês! Porque do espanto?
- Nada não!
- Como não? Ficou até pálido!
- Eu pálido?
- Quem mais? Você mesmo!
- Sabe o que é?
- Quê?
- Estou escrevendo um livro, e lá tem uma personagem que se diz Inês.
- É mesmo! E como se chama o mocinho?
- Luis. Igual a mim, Luis! Se meu malsim não tenha mudado de rumos e de nomes por não ter ele conseguido até aqui penetrar na minha alma no que me olha raso sem razão meu nem riso no liso desvão que rês desfaz.
...De parece poder...
- Então ela sou eu e ele é você?
- Acho que não!
- Como não?
- É uma história que inventei, e tampouco sou eu o Luis.
- Eu também não sou Inês, na verdade adotei este nome, porque não gosto de Ariadne.
- O meu é Luis mesmo.
- Estou cansada de dançar, vamos embora Luis!
- Para onde Inês?
- Para casa oras bolas!
- Então vamos.
- Espere aí! Esquecia minhas anotações, mas não as vejo sobre a mesa um.
- Deixe isso para lá! Está na hora de começar outra.
- E se eles copiarem?
- Você não copiou?
- Você está certa, para onde mesmo que vamos.
- Dá cá o braço Luis e chega de lorota.
- Como os de antigamente!
- Isso! Meu lindo! Fintemos o malsim.
...E era nem de nego não...
- Quando chegar a ponte você me leva de cavalinho na cacunda Luis?
- Sim Inês! Mas onde é sua casa?
...E era n de nunca mais...
- A minha e a sua J.J. é o Candinho, e deixe de onda que quero ver você virar os olhinhos, e morder a minha mão, meu lindo!
- Sim Inês.
Fim
38. A farsa de Inês.
O choro foi embora com os músicos do Choro Bandido, fazendo desaparecer seus fiéis, como desaparecem os gênios e as lâmpadas em filmes antigos numa explosão que gera uma nuvem de fumaça que vem do solo. Isabelle foi-se com o Ente, Ledório e Hermítio saíram como entraram envoltos em papel jornal agora um tanto úmido dado o merejar dos copos de cerveja e chope, Wirto desapareceu com uma loira, a bonita foi-se com a Negra dormirem para que uma o demônio acorde. De Mércia resta uma certa umidade no assento da cadeira. Edmilson saiu com a crônica pronta. O genro quase pediu em casamento. Seu Pavão ainda mais feliz. O serviço agora anda apressado juntado cadeiras e mesas dobráveis e dispondo a cada quatro cadeiras uma mesa. Luis ainda na mesa um anda as voltas com uma nuvem de soluções rondando e zumbindo aos ouvidos. Feia parece ter problemas com a conta e reconta o que falta. Fiado. Amanhã eu pago. Daí fiado só amanhã. Antoine não aceita, mas do gasto já feito leva o balão. Luis pagou e pediu o chope saidera, que resta inteiro, só o creme abaixou.
Luis arranca a cabeça dentre as mãos, arranca as raízes dos cotovelos do tampo da mesa, traça as pernas e balança o pé da perna que está por cima. Pergunta-se onde estou? Feia acende um cigarro. O som ambiente toca.
...Pipoca aqui, pipoca ali...
37. O acepipe.
A geada resistia aos primeiros raios de sol que pelas frestas dos pinheiros iluminavam as sombras de onde deveriam aparecer os fungos. Cada um escolheu seu caminho. Eu a mote de norte tangenciei o curso de um arroio de águas cristalinas, que descia rumo ao Segre, gelado e fumarento. Estaquei diante de um cogumelo. Admirado, pesquisado e por fim colhido. Com uma faca de cabo longo e lamina curta, cortei o talo acima dos esporos, regra a ser cumprida nessa micologia. Um passo a frente e toda uma família que muito reduziu o tamanho do primeiro. Mas, guardei o primeiro qual indez.
Continuei subindo por uma escarpa que dava em um grotão, que dava para mais além e fui subindo nessa busca infinita do desconhecido e quando consegui chegar ao topo um algo mais ensolarado, dei de frente com um Amanita vermelho com pintinhas brancas. Pesquisei. Alucinógeno. Psilocibina. Dei uma mordida. Achei-me sentado à beira do arroio e contávamos um ao outro o deslumbramento recíproco que sentíamos sua dele transparência indiscutível seu barulhinho ao passar o pequeno estreito formado por grandes calhaus em seu pequeno leito onde pousa o meu retrato colado em suas gneisses de fundo e ele o rio dizia de minha imobilidade, minha coisa nenhuma de alarme de nele se me ver refletir meu saber de que não sendo ele o mesmo e nem mesmo eu sendo no que me transformo sou ainda confiável sem me achar infértil por não ter peixinhos vermelhos a subir por mim meu não lhe tocar para me ter mesmo que o abuso de fulgor que lhe reflito que eu começo a pensar peixes feixes de luz e a ser eu rio eu peixes brilho o que vê e o visto sendo o sol refletido a fonte do calor que me queima e eu a banhar-me em mim beber-me...
Então você também se ausenta?
A todo pulmão aqui.
Recusas?
Qual recusa?
Que somos iguais. E que tampouco esteja inteiramente aqui, seguindo a tal de essência do ser.
Vale! Tenho momentos de fuga à inglesa, e você não é assim?
Sou. Mas penso que isso tudo faz o essencial. Sem projetar-me no futuro ainda que o pretenda e o projete.
Eu não disse que fugia rumo ao futuro.
Eu sei. É que parti do seu -fuga à inglesa- e acabei por complicar, o fato é que, se estou em você é porque eu quero estar em você.
Aqui estamos nós!
Desde Vasco da Gama!
Desde antes!
Andando em círculos!
Desde o inverno da Alexandria!
Se aqui estamos, pra onde iremos?
Que diferença faz inventarmos um dialeto?
Andar em volta de nós mesmos?
Eu quero uma festa sem fim.
Continuaremos aqui?
Vamos na busca da virgindade do mundo!
Sem sabedoria?
Só curiosidade!
Como?
Os sábios estão velhos. E nós seus legados.
Sim, mas, e o mínimo futuro?
O futuro mínimo que vira o máximo?
Nada se esgota em nós, ou fora de nós.
Então que tal a surpresa que enriquece!
Calle Luna.
La rambla.
Porta de Alcalá.
O buraco negro.
O sol.
O centro.
O cerne.
O sal.
Levanto-me e o frio corta minha carne embaixo de musgos e folhas grudadas a pele. Inês pousada sobre uma pedra a beira do arroio. Está nua sentada na pedra, um Buda assanhado que massageia os seios, agora torce a cabeleira e deixa explodir sobre eles. Tem os olhos cerrados, comanda meus movimentos, caminho para ela e sou sua presa dissimulada e ela serpente no deserto cingida, a cabeça saída deste rolo com a boca gretada na direção do sol, eu ratinho metediço corro esquivo em círculos concêntricos num acostamento curioso, ela inerte, eu cativo aproximo-me, tanto mais perto, tanto mais hesitante, mais a fortuna é aguda mais cumprirei o meu fado. Vitorioso entro na boca aberta que se fecha, sua boca engulo até o nariz, mordo sua língua, deixo minha língua ser sorvida, os dentes se tocam, as salivas se baralham, distingo a dela na minha, adocicada, ela desce sua boca pelo meu queixo, lambe o colo, eu sinto os pelos da sua vulva tépida lanosa na minha coxa, a umidade espessa vai se disseminando pelo corpo, sua no meu pé, a boca no meu, engole-o, liberta-o, aboca a glande libertada nos lábios, passa a língua, sua foi-se do meu pé, brota sobre minha boca, minha língua mais viscidez. Venha. Diz Inês. E eu vou. Oh! Inês, minha. Como Eco entro em sua gruta úmida, beijo a sua boca. Vibro harmonicamente como a corda de um arco. Tudo é umidade quente, um frêmito percorre-me, morde a minha boca. Mordo forte seu lábio puxando-o sinto um gosto de sangue então mordo mais violentamente e ela luta e com a palma da mão quer me rechaçar afastando meu focinho então cravo uma dentada e trincho o músculo de seu polegar masco sua carne, um copo se parte, uma espada entra na pedra, um véu é rasgado, relampagueia num mar tempestuoso, gozo. Desfaleço, tombo. Pleno. Durmo. Amo. A satisfação do desejo findo, ali onde já não existe o desejo, e por isso sou feliz. O amor pelo desejo que inventamos é uma sorte de parafernálias, o amor, a posse do desejado, passei a vida a ornamentar o desejo, pentear suas melenas, perfumar os seus odores, o que me impedia de voar sobre o abismo. Inês sabe disso, minto com o eu te amo, mas todo o corpo desmente. Entro por uma horta de quiabos quibebe papa de abóbora grelo de aboboreira refogado com azeite de oliveira, alho e cebola. Vou acordar. Salva-me um caruru, quiabo baba de quiabo, quiabo picado aos centos desde o dia anterior, picado miudinho, Caymi com prosa e cerveja ou água nestes tempos de cuidar do hardware quase acordo. Nina-me um cosme-e-damião. Quiabo picado, cozido afins de livrá-lo de um tanto de baba, camarão seco batido no liquidificador, ou pilado ou macerado com as mãos, castanhas de caju, do Pará e outras que encontrar picados na mesma forma que fizestes com o camarão, no mais, salsa, cebola e alho tudo picado e misturado ao quiabo, dendê de polpa e apure tudo em fogo que queima e os suores vão me acordar vem me o arroz solto ou empapado do jeito que for. Antes de acordar me salva uma boa soneca. Uma quiabada pode seduzir, no que há de baba. Frango com quiabo. Quiabo frito e arroz de alho papado. Vou acordar. Salva-me um par de tomates inteiros recheados com tomilho por um orifício feito onde o tomate se liga a planta, cozinhados no meio do arroz e dois ovos com uma bela pitada de sal sobre cada gema, fritos naquela frigideira que só você usa e que fica escondida no forno debaixo do fogão pra dona Inês não arear até virar espelho. Sarrabulho, sangue de porco e arroz ruins como um tabefe. Vou acordar. Transijo. Folha de taioba picada, tampouco, tanajura, também não. Tatu, tatupeba, teiú, tacacá, tucupi, monte de tarecos, tartufo, não isso lembra corretores, vendedores de carro, tira-gostos tépidos em vitrines prisões de moscas, moço quanto custa essa mosquinha? Mercado municipal. Pordeus! Vou acordar! Só pordeus não acordo! Ver-o-peso. Ribeira! Vou acordar! Vou acordar!.
Gasterea! Gasterea! Chamo e ela não responde. Lembra a tal história do rio que entramos não ser o mesmo do qual acordo. Desperto. Vaguei pelos Pirineus, esquecendo, amargurando, fugindo.
Luis foi preso por canibalismo, cumpriu oito anos de pena. Sem nunca ter recebido uma visita de qualquer conhecido. Tudo que tinha era um livro ensebado lido e relido ao infinito até ser deportado para Campinas, onde foi acolhido no Candido Ferreira. Depois de uma visita da anistia internacional ao presídio de Lérida.
36. Pão com tomate.
Numa dessas foi que Luis colidiu de frente com a rabeira de Inês. Ela sorriu, sorriu também Luis, do acaso daquela armação que funcionou. Braços dados fazendo uma ciranda cirandinha, os dois dançaram e cantaram em uníssono a toda gente.
-Queremos água. Um brado tradicional desse carnaval catalão.
Luis na verdade gostaria de cantar-
“É hoje que eu vou pra farra.
... Maestro manda aquela brasa...”[1]
Mas invés disso seguia o mundo ao seu redor:
Volem aigua-[2]
E os moradores munidos de baldes de água a apagar o fogo que não se apaga. As fagulhas caiam na cabeça, e o couro cabeludo às vezes detectava uma que outra. Esta mistura, fogo, água, cerveja, batuque e brilho nos olhos, deu em beijos, antes da primeira palavra. E assim foi até o amanhecer, de tantas noites.
Luis e Inês nos dias que se seguiram, viveram grudados, e quando o mesmo os entediava, os malabaristas, as pernas de pau, os Antonin Artoud, os duplos ou os fóruns os salvavam.
A alternância de dias, barracas, praças, teatro de rua e noites foram seus tempo e geografia, alimentados por uma complexa ostra. Fim da festa.
Pensou ir pra Alemanha. Mas, ainda não era o momento de deixar Inês afinal, mal começara. Apaixonado e fraco ficou. E quando o outono já mostrava seus ministérios aconteceu a maravilha das delicias. E isto tem lugar a meia altura do Pirineo que do lado que estava era catalão. Foi convidado a se tornar um caçador de Rovelhão. Coisas de um povo micólogo. Pensou no acepipe do sonho, pensou no fóton do acaso, na convolução e deixou que se merecedor me ocorressem.
Viajou com Inês aos Pirineus na direção de Balaguer. Não haveria nada de novo, a ser visto, depois de tantas ocupações anteriores à Durruti, lembrou que Durruti passara por ali numa curta primavera fascinante na sua luta em desamarrar-se do mastro, mas sempre haveria algo por ver com um olhar novo, e Durruti não olhava para o chão, buscava a amplidão da liberdade, Luis ao contrário indagava o que se abriga por debaixo das folhas a ver onde o levaria. Subiram circulando a montanha e Inês o guiava. Luis por tudo via Durruti arrastando sua corrente de libertação. Por fim e por sorte chegaram numa clareira com espaços para estacionar. Aqui transcrevo seu relato.
[1] Marchinha carnavalesca. De autoria de SS.
[2] Em catalão: queremos água.
terça-feira, janeiro 09, 2007
35. GASTÉREA.
Luis formou-se em química pela Unicamp fazendo os gostos de José Itaca em memória de Dona Inês falecida do não-parto e do amor de seu marido pelo menino a prescindir do seu. Resumindo Luis tem todos os órgãos aparentes no seu devido lugar, exceto duas coisas, o desvio de septo e a outra trata-se do que todos escondemos ainda que externo, e Luis diz que pelo tamanho tem um pé na cozinha.
Luis. Espere mais um pouco compreensivo leitor. Sabe? Durante estas tantas páginas pensei em fugir do que vem pela frente, para seguir o meu próprio caminho, colocar poesias na sua boca ou abandona-lo como Luis julga que já o tenha feito, mas tenho que salvar Luis da mesa um, antes que esteja tão embriagado, que acabe por ali mesmo ficar, ainda que não mais prescinda dele como personagem. Luis acreditava que química e culinária era o entrelaçamento do mesmo. Sempre se pensou químico-cozinheiro. Cozinheiro intuitivo e químico desleixado o bastante para não impedir o acaso como forma de atingir o impossível. Aterrou numa manhã primaveril friorenta de abril em Barcelona com o bucho cheio de vinho chileno, bebidos nas asas da Lan Chile, sem remorsos quanto ao pai adotivo abandonado.
Luis foi procurar o que chamava o acepipe perfeito. Para tanto criou sua primeira lei,na verdade a exceção da lei. Assim explicitada: Não há fórmula inicial, arestas ou molduras, talvez e senão que nada senão o acaso, como um fóton vindo do cosmo que atinja o cérebro no ponto criador, ou uma convolução construtiva que não dependa de meios externos.
E a nada Luis se furtou na sua caça de subsídios, pois para que a convolução ou o fóton que atingiu a cérebro de Einstein agisse caindo no dele Luis, haveria de ter um ótimo substrato, e assim será a fortuna.
Apaixonei-se definitivamente pela idéia gastro-foto-químico e/ou intuição-convolutiva de procurar o Acepipe. Cometer um acepipe dos sonhos à deusa Gastérea. Então pensava: para tal empresa não sou ainda possuidor do substrato ótimo. Vou ao encalço de Gastérea, ela há de me ajudar posto que é do seu interesse. Onde encontrar Gastérea?
Ela pode estar em qualquer lugar, na alquimia, e a alquimia nas catedrais e as catedrais em toda parte. Luis estará atento a tudo. Sabe que poucos ou nenhuns a viram, talvez Savarin a tenha visto, mas há muito não está em Paris, os deuses não perdoam. Porque perdoar é temer o pecador, antes de nada os deuses não temem.
Gastérea, deusa da alquimia e da gastronomia, o que acaba por ser o mesmo, deu as caras, Luis crê com um tanto de fidúcia, no churrasco de quartos dianteiros de cabrito e lombo de porco, que Aquiles cometeu para e com os amigos de Ulisses. E crê com alguma certeza, quando o mesmo Aquiles transmutado em porca, caçoada favorita do belo deus, incitou o campônio piemontês a comer do tubérculo esbranquiçado, qual os olhos do fazedor, que ela porca chafurdara.
Que Gastérea tenha sido vista uma outra vez nalgum bosque sueco, Luis não tem pia fé no contado, pois tudo fora lhe dito pela memória. Foi vista ainda baralhada a sombras e a forrações de folhas outonais, em cobre e marrom, que faziam uma abóbada invertida, suportada por um arvoredo que anda em busca de seu alicerce no céu de Berlin a alguns metros da porta de Brademburg.
Depois disso a última notícia que Luis tem da deusa é anterior a quaisquer aparições, está ligada ao mistério das catedrais. Um alquimista a teria visto. E lá foi Luis a buscar o desconhecido. E o que consegue, são tais catedrais com seus arcos rampantes sem contrafortes, seus arcos ogivais com intenções verticalistas, e aprende que, o que tem acima tem foços de profundidade idêntica abaixo, tudo no limite da estabilidade, suas plantas planas na forma de cruz latina, sendo um agente didascálico, representa o ser humano, onde o transepto corresponde aos equinócios e os solstícios e o eixo vertical correspondendo aos pólos em relação ao plano do equador. As absides orientadas, sempre ao leste, na direção do sol nascente, os portais sempre ao norte onde aparentemente tudo será escuridão. Guarda ainda na memória portais povoados com símbolos iniciáticos. Recorda de portas a leste onde sói encontrar-se baixos relevos com cenas do juízo universal. Ali sempre ao sul a grande rosácea é vista, deixando-se varar de luz, seu esplendor é um culto a Afrodite. Luis enlouquece com as esculturas. Se pega as voltas com o número quatro. Os evangelistas são quatro. Leão, águia, boi e o anjo. Outro quatro. As quatro estações, quatro pontos cardeais, outros povos acrescem o zênite e seu oposto, quatro fases lunares. Deus fez a lua antes do sol e a luz antes dos astros. A maçã. Tudo isso faz uma verdadeira enciclopédia com sua linguagem das pedras, escondendo o inconsciente coletivo da humanidade.
E como nenhuma ciência se dá por caridade, esta tampouco tem se dado a Luis, tampouco Gastérea ou o acepipe.
O que talvez tais catedrais fazem é eclipsar mais que alumiar, com interpretações tais que um barril vira um forno. E um forno levará à alquimia por transformação termodinâmica. Mas se assim se vê barril, terás um cozimento ou uma fermentação que é um cozimento sem fogo.
quarta-feira, dezembro 27, 2006
34. RESSURECTO.
Hug! Soluça. Renda. Hugenotes, e notes isso não é bluenotes. Meninas-da-Treze-de-Maio, libertem-se do malcheiroso desodorante barato. Mercaptana dentro de bombinha com desenho futurista vencido.
Alguém (um Glauber, não unglauber, sim glaubst) subido no pára-choque de uma Kombi com um megafone à boca, grita mais alto que este: Estética! Tudo pela estética. Não erraremos nunca. Estética essa é a palavra de ordem.
Melhores condicionadores. Melhores panos melhores. Cortes melhores cosimentos.
Pardelhas! Grita O Glauber.
atenuar diminuir adelgaçar exacerbar assanhar embravear excitar-se acalmar-se sossegar serenar amainar diminuir atenuar sempre o roer da conservação das criaturas passadios, indumentos, bebes, bálsamos, bolus de cachaça, Pingário!
Hahaha! Salário de pinga, pinga salário pingário.
Acalme-se rapaz! Diz de si pra consigo.
Coletivos são plenitudes individuais.
TESES.
Um estado de interesse.
Não um estado de direito. Nem um interesse de estado, tampouco o direito do estado.
Vamos ao que interessa. Deixe-me em paz Napoleão! Grita Glauber
mercado? Alguma alma furtada. Vida? Dissolvida.
- Às últimas conseqüências. Acredita Luis. Livre arbítrio? Um Glauber.
Partidos, só tidos por par.
Estética. Não a regressão à publicidade risível.
Geopolítica. Se um viajante numa noite de luar viu o sul virado para o norte, quem diria que o sul é para baixo?
Mercartor...
Deus?
Que não o transformem em biscoito.
Deus do céu!
Eu é que não existo, assim sendo não sei o quê sou. Não sou um quê.
Sincronia.
Não-destruir para subsistir.
Preguiça consumada.
Preguiça culposa, ócio laborioso
Pequenas não-soluções para o dia-a-dia.
Caixa de supermercado para quem têm um cartão de crédito com crédito e não esquece a senha.
Caixa de supermercado para quem têm um cartão de crédito que talvez tenha crédito e um outro para quem costuma esquecer a senha.
Caixa de supermercado para quem tem mais de um cartão de crédito-verifique-qual-deles-tem-crédito-disponivel. Senhas anotadas nos cartões.
Canícula. Chove pra cachorro.
Dia de cão. Faz calor de engrossar pescoço.
Proibido. Conduzir pela direita. Exceto nas ultrapassagens.
33. Juízo.
32.VAZANTE
31.Reintroibo.
- Já que não podemos sair daqui então...
- Então o quê? Falou Zénão.
- O chope falecido? Pergunta Luis.
- Faltoso!
- Ausente!
- Alheio!
- Distraído!
- Desatento! Fala Zénão fechando o pinga-fogo.
- Belmiroooô! Gritou Luis, já que o atraso é de lei.
- Que foi comeu sal, não dá pra esperar? Fala Belmiro mais perto que se esperava, quase intrometido.
- Sal não, ostra e bacalhau! Luis.
- E a que esconde a beleza? Pergunta Zénão.
- Conto-te já, ela a figura sem tristezas aparentes quis saber quem eu era! Disse Luis. Sério.
- E você? Que disse?
- Deveria haver dito que era um caracol que carrega a casa, a origem, mas disse que não sabia, e que tenho medo de saber, e saber que não tenha afinal tanto controle do que sou ou penso que sou e que são décadas de uma edificação sem fim. Agora que fui lá novamente pareceu-me zangadamente acessível. Mas meu cheiro estava lhe incomodando!
Luis ainda crê que mulheres não têm metafísica. Têm sabedoria e sabedoria é uma raiz que afunda na terra em busca de folhas, flores e frutos, cada qual no seu tempo. Luis quer florescer no inverno, no outono e acaba por ficar meio encruado na primavera.
sexta-feira, dezembro 22, 2006
terça-feira, dezembro 19, 2006
30.Beocismos.
- Sim e nos apavora qualquer coisa que quer se afastar do romântico.
- E o quê se desgarra?
- Coisas aparentemente beócias como a criogenia, a clonagem, o homem no espaço sideral. Imagina você um homem que se nos apareça e diga: sou o primeiro humano imortal, vocês serão os últimos mortais, a ciência ou a casualidade nada poderá fazer a vocês senão que aumentar-lhes uns aninhos na velhice. Mas vejam, vocês e todos seus ancestrais, foram geradores desta possibilidade, não se aflijam, pois vejam, nada foi em vão.
-É! Causaria pavor, já pensou ser você o ultimo homem mortal que viu o homem imortal?
Tudo dito Luis olhava Feia como se pelos olhos dele a imagem de Laura saísse em raios luminosos e refletidos nos espelhos das gelosias em ângulo remontassem e sobrepunha Feia onde braço esquerdo caía ao longo do corpo com uma leve inclinação do torso que assim descarregava seu peso sobre o cotovelo direito, abstraída, abandonada, o olhar parado antes de sair do corpo, sem vida.
- Não! Grita Luis, não é razoável deixar que morra e ter que ficar com a minha própria fechada boca. Não morra. Não quero que você morra. Eu te quero assim como é. Nunca morrerá.
Enquanto seu Ivan, um pato quando um pato sai da água, que chegara entrementes Luis dançava perguntava-se, que diabo de errado tem as geladeiras, afinal as geladeiras gelam o chope. Seu Ivan foi representante da Brastemp e sempre se vexa quando, usam a frase mercadológica da empresa em relação às mulheres que conquista.
- Te apresento meu amigo seu Ivan. Belmiro brincante.
- D’ond’é que ele veio? Pergunta Antoine.
- De Tupã!
- Qu’é que ele merece?
- A peba gorda do irmão da anã.
- ÃÃÃ seus gracinhas! Grunhe Seu Ivan.
- Que tem o seu Ivan? Está triste! Pergunta Luis a Zénão.
Desempregado, quando até rufiões trabalham! Diz Zénão.
De onde você tirou isso? Pergunta Luis cheio de inveja.
Eu sou o teu Sancho meu velho!
Depois do valioso acréscimo de qualidade de vida geladeiras causadoras Seo Ivan defendeu cartões tíquetes restauradores modernizadores na redistribuição de migalhas e orelhas e pés de porco.
- Se coubesse no bolso dele, carregava a empresa ao bar, e a malvada chuta-lhe o rabo. Disse Luis.
- Vai tomar um esguicho de água limpa, Luis você está fedorento. Disse Zénão.
- Cheiro ao dia da criação! Disse Luis e adicionou - às vezes para que alguém viva alguém tem que ir pro inferno. E como um pároco pedante somou: e quia nulla est retemptio.
- Essa dependência é que é, romântica, meu caro! Diz Zénão.
O Atibaia segue estufado, grávido de gêmeas gotas grandes, passando a um palmo do chão do Deck. Luis pega da mangueira e se desenlameia no estacionamento, sob o olhar insatisfeito de Wirto.
- Onde está sua calça?
- Na casinha.
- Não volta pro bar assim não. Wirto tomando rédeas.
Luis banhou-se mal-e-porcamente e vestiu-se molhado, o calor do corpo secará tudo como secou a figueira. E foi em direção a mesa 21.
- Feia, soltando uma baforada, pressentindo um assédio mais pegajoso, rompe com um: Você está me incomodando. Até no cheiro, completou, como uma mãe falsamente zangada.
Sossegada! É que você só participou do segundo ato da criação, e já não havia barro. Fique tranqüila, que logo logo deus criará o perfume francês.
- Pensei que os santos ocos fossem feito de madeira.
- Perdoa. Foi mal. Escarnecendo. Retirando-se.
quarta-feira, dezembro 13, 2006
29. O Sátiro.
- Que deu em você Luis? Pergunta Zénão.
- A lama, é a alma! Diz Luis enlameado.
- Você..., não sabia desta vocação para o estrambótico. Fala Zénão.
- O que há de estrambótico em dançar, no mais também gosto da ação e que se assim permanecesse, logo ele me pintaria como uma montanha graxiforme com uma cabeça enterrada entre as mãos em meio um enxame de mutucas. No mais Zénão, estamos ilhados, é o dilúvio.
- É meu velho. Fala Zénão. Juntou a ubiqüidade de Deus em sua forma água e a humana no dia de hoje. Zénão brilhando.
- Um não existe sem o outro e noutro eu não creio. Fala Luis zeloso.
- Hahaha em que ordem?
- Vice-versa.
- E ai Belmiro?
Belmiro em seu calção cruzara todo o estacionamento da galeria, em águas até o joelho. Voltava com os poderes das noticias novas qual revistas semanais em consultórios sem virar sabedoria. Cheirando a inundação e inundação cheirava a muita merda, humana, bovina, suína e enfim latrinas mamíferas e ovovivíparas. Mercaptan. Mas isso é o de somenos importância.
Diria a Luis o que aconteceu com Laura? Belmiro aconselhou-se com Wirto, todos sabem da veneração. É melhor ter certeza. Sentenciou Wirto. E Belmiro prosseguiu com o noticioso censurado.
- E ai o policia pegou a dona Ísola no colo enquanto o bêbado escapou da corda e foi pela correnteza, mas antes a correnteza puxou a calça do cara até o pé, ele tava sem cueca e a correnteza levou o cara até a pastelaria. Depois veio um banco lá do bar do Zé do Cleto o cara pegou o banco e sentou e cruzou as pernas. Depois esse louco ai dançou no meio da lama. Disse Belmiro de carreirinha.
- O lamaçal da felicidade comporta tudo que existe, quero dizer, queria que fosse infinito, e essa é a minha busca. Luis fazendo apologia da sua lambança.
- Até a morte. Disse Belmiro.
- Sim! E se não for isso aqui a festa prometida? Quanto tempo se perdeu na ante-sala.
- Inexorável. Diz Zénão.
- Salvadora.
- Como? Salvadora!
- Vivemos assim, tão sem desejos e paixões, com menos que a morte permite, e o que por fim fazemos é atabalhoada e romanticamente perseguir sua abolição.
- Que você quer dizer com romântico? Pergunta Zénão.
- Tudo que culmina com ela.
terça-feira, dezembro 12, 2006
28. Rio enchido.
- As águas do ribeirão das Cabras estão quase na altura da ponte e numa velocidade de dar medo. Noticía Belmiro.
- Então é isso! Luis intrometido. Interrompe. Define. Essa água do ribeirão das Cabras é causadora desta exabundância do pacato Atibaia.
- Como Luis? Um riozinho entanca o Atibaia? Ignoram.
- Como? Já não cogitando o que não se cogita. Mas...Explico diz Luis.
- Então explique J.J. Belmiro fazendo graça. E sem explicar nada Luis levanta-se e vai a casinha.
E sabe o que aconteceu querido leitor? O ribeirão foi-se enchendo, ora lentamente, ora de borbotões turbilhonados, e o povo ia avançando por locais já não permitidos pelos bombeiros, chefes de ocasião, PMs, defesa civil ou puramente sensatos que todos por fim são. Alguém gritou que acabara de passar uma cadeira arrastada por um vagalhão que arrasou o bar do Zé do Cleto, e os objetos foram se nomeando e enumerando, de todos os tipos e razões de uso e desuso e por fim todos acabariam e acabaram por ter no leito do ribeirão sua campa ou boiando como as tábuas do cantor, quando ali todos achassem, e achavam, pensassem e pensavam, cogitassem e cogitavam, veio uma pororoca pelo ribeirão que os que viram a onda davam-lhe dois metros, metrimeio e que os que não viram foram por ai aumentando-a na nostalgia de não a terem visto, proporcionalmente à distância que estavam do fato.
Fato é que depois desta onda a pontinha ficou coberta pelas águas esguichando enfurecida como um gêiser e a ruazinha que nela dava, tornou-se um sonegador de águas com força de corredeiras, e uma parte desta água toda seguia com força em direção da ponte pênsil que cobre o Atibaia e que por ali um dia passaram as tropas constitucionalistas que vinham desilhar dos mineiros os sousenses de antão e agora e dela as águas caiam numa cortina escura sobre o estancado Atibaia que parou por ali e foi se enchendo, pois sabia de memória o seu caminho natural de descer sempre descer, mas desta vez encontrara o sanhudo ribeirão, hoje um pedreiro desconstrutor.
A devaricada batia na parede da casa em frente formando um imenso rebojo e ia com velocidade até a pastelaria onde equânime democrática formava um mangue e a calmaria do plenilúnio, com sua maré foi ilhando casas, pessoas, umas sós outras em cardumes. A velhinha da casa verde saíra de sua casa e tinha sua própria ilhazinha com quatro hastes de coqueiro em meio à turgidez da sizígia e tudo defronte a pizzaria Fidúcia. Ela estava infeliz e fazia sinais, e gritava um grito inaudível dado o som de cachoeira do defluente do ribeirão. Mas não dava para resgatá-la, a rua rio defluente arrastaria quem quer que fosse. Surgiu uma corda, e um policial que por hora não podia capturar essas águas fugidias há muito presas e escravizadas em represas e açudes particulares a melhorar paisagismos de condomínios lá pros lado e para além destes lados de Joaquim Egidio. Amarrou a corda no poste e jogou a outra ponta da corda para o pizzaiolo, também ele ilhado, que a amarrou no pilar da varanda da casa que por agora não tinha mais o endereço Maneco Rosa 21 com todessa água tinha condições geográficas de ilha, a ilha da casa avarandada.
Corda tencionada o policial meteu-se com técnica a atravessar o defluente, colocando-se à corda de tal forma que a correnteza do defluente não lhe puxasse e sim lhe empurrasse contra a corda tencionada. Cruzou a correnteza, sob aplausos da angustiada multidão e agora em águas calmas do pequeno mangue que ficava em frente da igrejinha de São Sebastião. Movia-se perscrutando o chão invisível lentamente arrastando os pés no submergido e desconhecido fundo que de memória também sabemos ali havia um banco de praça um hidrante uma roseira? Não!
Roseira não havia! Podia haver se houvesse vindo lá de onde toda essa água havia fugido com as marcas de quem começa fugir no começo da tarde e segue varando cercas rasgando roupas e peles rolando pelo chão quais escravos de uma outra época, pois os desta época não se sabem como tais com seus tíquetes qual feijoada e seus casebres senzalados, sempre a beira-rio, agora com o acréscimo de vantagem, inundáveis de lama fertilizadora.
A filha da senhora da ilha dos três coqueiros chegara de Campinas em prantos de quem perdera a casa, o cachorro, a mãe. - Perdi tudo! Tudo que tinha.- Tudo dito em prantos. Nascida e vivida para a tragédia aguada, rasteira e estúpida, que na televisão se lhe fez parecer assim ser, e agora a telespectadora à imagem e semelhança da sua atriz favorita. Tem medo. E há uma quase alegria trágica desta não divulgada opereta, mas continuava sua lamúria esperançosa de um subir o pano.- Deus! Meu Deus tenha pena de mim e me ajude -. Seguia a lengalenga sem se dar conta do de-fato. Mas os aplausos que a consolariam, vieram para o policial que agora tinha nos braços, como quisera o poeta, dona Ísola, salvada assim nupcialmente, sorrindo as lágrimas do medo, do desamparo.
-Ai minha mãezinha! Começa assim.
-Ai iai ai minha mãezinha. Seguia assim.
Tirania. E o polícia vencendo o mangue recente dessa tragédia propalada diariamente com a obrigatoriedade de uma cruz que muda de ombros que acabam por ser sempre os mesmos. Sem cunhar sabedoria. Nilo, Tigre e Eufrates.
Um dia aqueles açudes romperiam e romperam. Luis da Silva Neto, a cada passada por essa praça planeara um festival de teatro, a vocação do velho casarão com sua janela rapunzeica, o terraço balaústrico, seus tijolinhos veronenses. Dizia Luis o mesmo do coreto ali a beirinha do Atibaia, que lhe cortara o outro semicírculo dos outros todos coretos, e por uma razão escapou à lógica ao que este arquitetou. Impedindo-o de exercer sua vocação de ser essencial e talvez por isto permaneça lá isolado deste teatro comunal, onde o palco central fora à ilha dos três coqueiros.
Ísola e o polícia teriam agora de enfrentar a corda e o defluente do ribeirão para poder alcançar a terra firme da calçada do Correio e Telégrafos alvorotada de gentes, o louco agora sentado no espaldar do banco, batia com o graveto na água achocolatada, mercapta, à sua volta fazendo ondinhas. A corredeira exigia do policial que seus passos fossem cada vez mais curtos e que os seus pés cada vez menos subissem do chão, suas canelas em movimentos fortes sim, mas sim também inseguras eram duas quilhas de um único barco singrando a corredeira. Enfim a corda. Queria ajuda, e houve uma tentativa, um bêbado, bebera para além do medo para além dos portos seguros, mas não se precaveu e agarrou-se à corda do lado vazante e no segundo passo a força da correnteza tirou-lhe o pé do chão e ele flutuou agarrado com mãos inseguras, logo a corredeira arrastou para seus pés seu moletom, desvestindo-o, lavando-o, sentiu vergonha, nunca medo. Soltou uma das mãos para tentar puxá-lo e vestir-se, a operação durou pouco e ele nem conseguia por fim se vestir e segurar à corda, chupado pela correnteza, foi arrastado pela devaricada de costas como convém aos homens, bateu na parede da casa em frente passou pelo rebojo e continuou sendo arrastado até a pastelaria. Ali em águas calmas democráticas, sentado, descorçoado com águas até o pescoço vestiu-se assim. Levantou-se com um certo júbilo e cai estando meloso e ágil batia mãos e pernas tentando nadar, e nada, só fez em roubar a cena do Policial e de Isola.
-Ele vai morrer. Acudam este homem pelo amor de deus. Gritou em uníssono o povaréu.
- Braçadas e pernadas. O bêbado fez.
- Meu Deus. O povaréu.
- Levantou-se como quem tropeça. O bêbado
- Hahaha. O povaréu.
-Caiu de boca. O bêbado.
-Hahaha. O povaréu.
Levanta-se como quem faz flexões, já num lugar mais raso e a boca cuspindo lama, ou vomitando, nunca se saberá. E nisto já ia a meia corda uma heroína.
- Hum! Camiseta molhada. Murmura um grupo. Enquanto nossa heroína chega até aos protagonistas. Confabulam.
-Que tanto cochicham? Os curiosos do mesmo grupo.
Parece que o Policial não aceitou a ajuda oferecida, prevendo que lhe faltassem braços à travessia. Falou qualquer coisa com Ísola, passou da posição de tê-la nos braços, pré-nupcial, para algo mais desconfortável, primitivo, agarrada junto às ancas, no entanto mais segura, passou por baixo da corda, mantendo a técnica e com a outra mão segurou-se a corda, enquanto passava navegando um tamborete, que foi parar junto ao bêbado que espirituosamente nele sentou-se.
-Hahaha. A galera.
- Óóóóóó...Ó. quando falseou o passo o Policial. E tudo seguia perfeito no mais absoluto improviso, se algo sólito advém de telenovelas e Hollywood.
-Hahaha. Em derrisão alaria um filho de Deus.
No que o bêbado se sentava sobre banquinho e equilibrando-se cruzou as pernas ergueu os braços aceitando o riso e a chacota e algumas palmas numa fina estampa.
O Polícia chega a porto seguro com sua Ísola às ancas. Sob ehês, e clap clap.
segunda-feira, dezembro 11, 2006
26. Re Introibo ad mesare um.
Devemos beber, falar, cantar e dançar, tudo e acima de tudo incessantemente e intensamente. Luis tem o copo de chope levantado, em ofertório.
- Essa é minha bandeira. Disse Luis, celebrando seu retorno a mesa um já bem ido na começão de água.
- Então Luis essa história, do beijo, você já havia me contado. Falta algo, quando você me contou aqui mesmo nessa mesa, foi mais crível, mais viva, havia mais suores, não que seja de todo ruim, tem até um certo estilo, não é plágio, não é uma impostura, mas enfim como você já me disse o seu desejo é escrever um livro, então que seja esse e assim. Estou errado?
- Não. Responde Luis secamente.
- E você o que você pensa?
- Estou tentando deixar a minha guerra de mesquinharias falando sozinha. E a vaidade também. Eu quero um critico. Gritou. Um não. Todos.
- Um dia há de vestir o fato da academia. Fala Zénão.
- Não tenho essa veleidade.
- Mas escrever um livro não deixa de ser uma. Ou um instrumento dela.
- Pardelhas! Agora a vaidade tem hermenêutica? Zombeteiro não entendido de palavras completamente.
- Claro.
- Vaidade custosa! Exclama Luis.
- Tudo é custoso. E por que você quer escrever um livro? Tem algo que não foi dito a humanidade, daquelas coisas dentro da gente que insistem em descalar?
- Nada disso não!
- Se você quer ganhar a vida, é um péssimo negócio. Seria para conseguir uma obra de arte? Um instrumento de transformar o objetivo em subjetivo ou no seu duplo, reinterpretando tudo da minúcia a essência? Pergunta Zénão.
- Sim meu amigo, ler o inconsciente coletivo do coletivo inconsciente para conhecer a mim mesmo. Saber das razões e suas determinações, das leis difíceis de fugir. Por exemplo, por que uma maçã cai? Por que está madura ou podre? Não! Cai só porque existe a gravidade, senão que ficaria madura ou podre lá no galho. E se não houvesse gravidade sequer existiriam macieiras ou arvores. Pode ser contraditório, mas o que faz com que caia pode ser o que faça crescer, a gravidade. A vida como ela é ou a invenção de uma vida tem sua engenharia. Luis lamuriento.
quinta-feira, dezembro 07, 2006
25. Rezaiste
- Você viu Zénão o que está acontecendo?
Zenão não vira, pois estava discutindo o tal texto de Luis. Compenetradíssimo.
- Cadê J.J.? Perguntou Belmiro.
- Pare com isso Belmiro. Deixe me em paz.
- Luis Bebeu. Cantou. Está na 21 se engraçou com a mais Feia.
- Treta. Belmiro maquiavélico.
- Né não.
- É aquele negócio; conversa com a Feia simpática atira uns tijolos na mulher bonita que está sempre, pordeus, insegura.
- É por ai. Como você é xarope Belmiro.
- Li o Manual para melhor te xavecar[1]. Fala Belmiro.
Enquanto isso Luis toma do seu copo e se despede temporariamente das moças. Todos sorridentes. Passa pela 11 a mesa da discórdia, neste instante quarta-parte ocupada. Lá esta H. de Pádua fundador do separatismo sousense, tenho certeza se dito um Hijo de Puta, HdeP, ele fica fulo. A Europa se unindo e Sousas município? Evidente só ai poderemos cuidar melhor da APAs segundo um interesse sousense, não com um sub-prefeito pau-mandado dos Jequitibás. E lá vem chegando a base operária do Sousas Município Autônomo, SOUMAU. Jão Prodome chega.
- Fala dotor. Fala Jão.
- Falo, falo sim. Diz H. de Pádua e emenda: vou direto ao assunto.
- Pode falar doutor sem rodeios. Fala Jão.
- O cabeceira deixou quinhentos paus para repartir com o pessoal. Disse-me ainda: Dê mais a J. P., Ele gosta de você Jão. Ele disse, o Jão é o porta-voz, não ele disse, Jão é o munícipe, o povo em si, está nos bares bebe socialmente depois disse, dê um pouco para o jornalista como que se diz? J.C. Emedione outro tanto pro advogado GB Gabriel e falou assim olhando no meu olho, só volte a me procurar depois que for eleito, que vou então acabar com essa mixórdia e daqui a dois anos Sousas estará livre com eleições e você será o primeiro prefeito HijodP, olha que não gostei, mas que fazer? Era o homem ele mesmo sem recados disse ainda: comportas a montante, construir palácio dos Ingazeiros entre os dois rios, mesopotâmia Hdputa. Mas doutor Rezaistes talvez fosse melhor já fundar um principado então teríamos famílias principescas e principais. Não HdeP.. Doutor! Quase fiquei nervoso, ele sabe que não gosto, mas ele pode. Não esqueça as bases meu munícipe, as bases. Frisou. Os munícipes são a nossa força, depois mando tirar todo esse lixo de gente daqui com um chute nos rabicós de cada um. Sim senhor doutor Rezaistes. Eu disse. E ele disse ainda: entre na ação cidadã desse ano junto com o Jão P. faça camisetas enfeite os barquinhos recolhedores de petcolápias contrate modelos e vista-as com as camisetas, não coloque o meu nome que ainda não é a hora. Modelos? Será que chegam a virar mulheres, sempre só um modelo um protótipo não importa sempre sobra uma roçadinha aqui um bumbum distraído ali jantarzinho alegre lá no-como-se-diz? É práisso mesmo, de negócios, todo bonitinho, respeitoso, conheço o garçom e ele descola mesa do fundo, pés sob a mesa subindo canelas durinhas, penugens, calor subindo, mais um vinho, merecemos, foi um dia lindo, o povo na praça, as petcolápias amontoadas na Beira-Rio, fotos no Correio, na coluna social do XV, com sorte na do Correio, conheço o cara lá do Citibar, vinho branco Camilo Alves.
Jão Prodome bota as notas de cinqüenta na carteira, aperta a mão de H. de Pádua e escafede para o Central, que “lá que é o meu lugar”. Sai dizendo.
Luis na volta esbarra na estátua de Hermítio que lê Carta Capital que não se incomodaria ainda que o Bertolini passasse por aqui tocando o mini-trompete dentro da sua orelha.
[1]Manual de Xavecagem por Ecidão, com anotações de Nicola Machiavello.
quarta-feira, dezembro 06, 2006
24. bah! histórias....hum..
Zénão tem à mão ainda o maço de folhas envoltas num almaço impermeabilizado por uma fina camada de gordura onde se lê: O Beijo
- E este O Beijo?
- Este será o último capitulo do livro, por ser ele possível, não quererá acabar em desdobramentos, mas num beijo.
- Capitulo ou epílogo? Pergunta Zénão.
- Não importa serão as últimas páginas e por agora quero sua critica.
- E sua própria opinião?
- É sempre favorável às minhas crias.
- E onde entra esta poesia que li? Pergunta Zénão.
- Imaginei o personagem usando-a como instrumento de demonstração de sensibilidade, uma criança que empurra o copo cheio de leite só para vê-lo ele o leite derramar.
- Já têm nome esses personagens?
- Têm. Luis e Inês.
- Não era Laura?
- Não era Laura! Era?
- Não sei, acho que era!
- Você acha que ia por o nome dela?
- Não sei não, por que não?
- Acho que ela não ia gostar!
- Por que não?
- Você viu hoje?
- O que? Ela dançando com você?
- Então eu não esperava por aquilo! Ela tem atitudes que nem me surpreendem mais, dada a constância da inconstância.
- Mas se colocasse o nome dela isso ia mexer com você e permitir mais liga.
- Onde você viu isso?
- Vê os compositores, quando compõem para elas.
- Não é isso não Zenão, isso é pra acalmá-las.
- Deixa isso pra lá, como é o enredo então?
- É simples e ao mesmo tempo complexo.
- Como assim?
- Ela lhe dá papinha. Hahaha!
- E o que significa isso?
- Sabe Zénão, Luis não consegue transpor o círculo, parece que Virgilio o abandonou. E ela olhando desde dentro o vê invisivelmente familiar, mas não o permite descer, e nem não impede.
- Quer saber? Disse Zénão e continuou, Luis quer o perigo, mas o teme. Cobiça, mas odeia a dádiva. Acabará por ser vencido e não aceita. sabe que viver é uma luta continua e absurda e inapelavelmente fatal.
- Resulta em que, meu querido?
- Adaptar-se ao poder da fraqueza.
- Acho que sim Luis sabia que era mais fácil trepar com ela que a amar, como naquele dia que ela falou do tal Molyna e Luis já sabia e Luis jogador não quis umas cinco vezes fazer os caprichos dela e ela ardendo de desejo tanto que até seus olhos estavam brilhilubrificados e Luis dizia “eu te amo”. Quase a obrigava a dizer o mesmo por um pouco de sexo. Então Luis escarnecia dele mesmo para ela relaxar e então ela o deixava e saia atrás do Molyna, tudo porque Luis realmente a amava. O sexo em si é para Luis uma efeméride, e muitas vezes sustinha-se com putas e punhetas, e definitivamente queria com Laura sexo e amor.
- Isso é do mais refinado masoquismo! Diz Zénão.
- Como assim?
- Como? Negar sexo à mulher que insistentemente se ama! Que é isso senão masoquismo!
- Calma! No caso sádico também se ele só fazia seus próprios caprichos.
- Esse Luis estava era com muito medo, isso sim!
- Pode ser.
- Pode ser não, é, ele tinha era medo dela!
- Medo como?
- Medo! Medo do sexo com ela.
- Medo nada andava platônico cada qual com sua história que não incomodava o outro, nem ciúmes, nem desdém.
- Nossa você está louco, meu amigo, pensei que tinha se curado. Cadê o desejo?
- Às vezes o desejo...
- Quê que é isso?
- Não deixará contá-la nunca, quantas mudanças tanta interferência?
- Conte.
- Você não acha interessante se jogar tanto, a ponto de não restar outra coisa senão o jogo.
- Sim, mas não lerei.
Lere lerei lere lerei... Cantarola Luis. E segue - O texto exige de mim, ele arranca de mim o que eu não queria dizer à luz do consciente, imagina agora que eu que sou personagem escapulido do escritor e por ele esculpido, matreiramente a esguivar entre as bananeiras limitantes verdejantes que ele plantou para ser o meu jardim, dizer a ele que esse era o modo mais cruel e possível de viver uma paixão, mas eu queria que ao ler soubesse de si.
terça-feira, dezembro 05, 2006
23. De todas as águas a lama lava a alma.
- Ô Belmiro! Vá se informar, que é do que mais precisamos. Pede e ordena Luis.
- Luis! Que é esse envelope junto com o jornal?
- Uns manuscritos que trouxe pra você dar uma olhadinha, são os trechos do livro, que morrerei a escrever, de que te falei.
- Olha! Fala Zénão abrindo o envelope amarelado tamanho A4 e donde saca um maço de folhas.
O silencio se instaura na mesa um, dada planura do assunto, e porque Luis já ia fazer um discurso que ele acha enfadonho, afinal quem te domina?
- Não sabia que você escrevia poesia! Fala Zénão. Referindo-se à primeira folha do maço já esmaecida e amassada, onde Luis mostrava uma vontade mallarmaica em letras tipo verdana, hora bold, hora em negrito e hora em itálico em diferentes corpos.
- Há muito mais que você não sabe de mim, mas na verdade é uma brincadeira preguiçosa. Dito também no mesmo jeito.
Enquanto Zénão ia lendo:
Anda, anda, anda a espera.
Espera.
Espera, espera, à espera anda.
Anda.
Anda e espera. Espera a andar.
A espera desanda.
O andar desespera.
Desesperando. Desespirando aindanda.
Transpiranda transpirando.
Pira parado.
A quantas andas?
Andava andrajos.
Andava trapos?
Trapaças.
Trespassas?
Eu nos trapos sei a sobras.
De sopas?
De sapos!
Assim soçobras, misses!
Sê sim. És Mis.
Assim na missa.
Sobras e cobras.
Miss em ação.
Andas às cobras.
Espera as sobras de sobejos beijos.
Rastejas a rés dos brejos.
Sem sombras no chão.
Salobras sobras às sombras.
O brejo sabe a uma feijoada de ontem.
Com sua película branca.
Uma aranha que perde o fio.
Que a prendia a teia.
Anda sobre um brejo de feijoada.
Anda aranha.
Me espera.
Zénão diz - Engraçado cara, podia ser as sombras sobras salobras, esperam mis em ação de sapos nas missas aranham a manhar uma película de teias de brejos que andam a espera de sapos e cobras. Mas tem algo, que não sei a que a espera anda a espera.
- Tem muito sim de sopa de letras jogadas do saco do arcebispo Tillotson, em defesa da deidade na criação do universo, como se não fosse um mero acaso, e se outros meros acasos de baixa energia e muito e talvez por isso um nada qualquer, preguiçosamente, lentamente em busca de menor esforço ainda, um meramente mero universo frente a outros possíveis quaisquer, sem nenhuma necessidade de agradecimentos e devoções.
- Hahaha
Ri também posto que bar é interagir. Mas parei por ai, voltei às anotações como um porquinho da índia metido com sua folha de capim-gordura que vai entrando pela sua boca, para sair na forma geométrica elíptica de uma pipoca doce na época Kino de Mazzaropi e do imensamente Grande Otelo sem mais nem talvez porque menos.
quinta-feira, novembro 30, 2006
22. Hermítio.
Hermítio ocupa a mesa três. há, um jornal, meio editorial de uma carta capital e uma Itaipava aberta a tempos. Ainda vai pela metade, num balde de gelo. Seu copo com aureolas da espuma da cerveja bebida lentigradativamente segue entre folhas e revistas. É um que lê e que fracassa na sua sabedoria ou parece ainda ter muito por não compreender. Olha uma veja. i.e. numa época de saúde o que mais há é falta dela. Para ser sem vergonha, basta ser decente. Tudo mata, e as manchetes esquecem que a vida custa a morte. Esquecem que viver cansa e envelhece, já o envilecimento seria um tipo de oikos estúpido. O sr. não pensa assim sr. Hermítio? Com a mão no queixo, Hermítio coça com o indicador onde haveria de haver um bigode a pensar na resposta, Hermítio não diz, queria dizer... então diga sr. Hermítio sou todo ouvidos, muito embora a compreensão me falhe amiúde, mas isso é de somenos, Hermítio posso assim a si dirigir-me? Obrigado por quebrar este gelo, avancemos Hermítio avancemos, olha eu não consigo computar uma somatória de percentagens. Não tem importância, não creia que outros o consigam, pois se o fizessem seriam charlatões diante destes escaparates percentuais, cigarro mata de câncer, 67% dos fumantes moram em pequenos apartamentos cheios de fuligem dos automóveis, 43% dos fumantes que moram em apartamentos nas condições anteriores estão inadimplentes ou serasados, destes 67%, 97% sofrem de stress, 3% não puderam responder, pois 100% dos 3% dos 67% que não sofrem de stress, só não conseguiram hábeas corpus do campo santo. 90% dos 67% fumantes tem diabetes, São Paulo capital vende 1 milhão de pizzas por dia mesmo com a dieta do sangue, cada 50% dos 67% usam mais de um quilo de açúcar refinado por semana, os outros 50% não conseguiram entrar no programa de renda mínima do traído senador. 30% dos brasileiros morrem de cardiopatias vindas do tabagismo, 30% de cardiopatias vindas das gorduras hidrogenadas, 30 % outros morrem de triglicérides boas vindas de Jô pelas ondas eletromagnéticas, outros que não morreram não o fizeram por não ter onde cair morto, noves fora os 700 que morreram de morte matada ou plumbicorpus ou seja chumbo alojado em local letal. Se alguma morte fizer com que os mortos superem o número dos que se foram, será matéria de uma semana qualquer ociosa do editor ao ver a linda praia do Sahy ainda cheia de mortos vivos na fila de pastel de palmito da Benê. Outras fontes de mortes são traços nas pesquisas desta semana, já na semana seguinte as de hoje serão traços, aliás as pesquisas são feitas porque sobram verbas nos departamentos de pesquisas por falta de projetos e então se compram computadores e o Bill já manda o software com programas de estatísticas que pouco pedem para vomitar uma lista com este maravilhoso signo: %, que facilmente se imprime na forma pizza, torres, linha continua, etc... ao que vês há uma certa incongruência aritimética, sim esta dos dedos, patéticos dedos que a tudo se agarram. Como? Sim também creio na necessidade de informações, e análises, mas e o tal conheça a ti mesmo? Sim, mas quando ao sair de si para e pelo outro voltar a si... sim, sim Hermítio somos iguais, melhor dito semelhantes, concordo, sim há mesmo esta intersecção, desculpe em nenhum momento eu pensei em desembaralhar esta área hachureada, sim o que fazemos mor das vezes é aparta-la do non contido, sim tenho mais o que fazer, já que o sr. também, claro com tantas revistas a fazer, pudera nem bebe direito a cerveja e veja o gelo já derreteu no balde, eu sei que não é da minha conta, mas gelo com água em partes iguais chegam ao equilíbrio de temperatura na média, eu sei você não me perguntou, mas esta é uma informação pertinente, já que quer a cerveja gelada. Hermítio ainda não é o que se pode dizer um imbecil por própria conta, tem muito que ler.
quarta-feira, novembro 29, 2006
21. O bote de Caronte.
- Ah isso é só chuva não. É estouro de açude. Fala Zénão voltando da sentina tentando olhar o embaixo da barriga querendo ver se chacoalhou bem.
- Luis?
- Fala meu inquiridor.
- Você já ouviu falar em dedetização ecológica?
- Vi um papel colado ai no banheiro do Deck.
- Você não vai falar nada?
- Sempre vou, ( falando em voz baixa com a mão escondendo um dos cantos da boca, como se fora um segredo) nunca hei de me calar e deve de ser coisa tal como guerra cirúrgica. Ou então como em Espanha você pode comprar haxixe, mas não pode vender... Penso que o Zé Simão poderia explicar, ou então trate bem duma barata ou dum rato deixando-os bem fortes, então o rato vira ator e a barata a atar batalhas disseminando o terror aos outros da mesma espécie, e você só tem que matar os que ainda ratam ou baratam, sendo um ou dois indivíduos. Tratar o esgoto de suas casas ninguém trata. Saco. Deixe-me sentado no meu rabo. Tão cheios de razão como um bando de ruminantes com seus dimetil-sulfetos. Mugentes ou não. Resumindo é o mesmo que vestir preto para parecer mais magro.
Eu entendi isso como se a vida humana fosse por si só geradora de insetos, e assim por uma simples inferência concluo que só vamos acabar com os insetos se acabarmos com os humanos.
- É! Está cada vez mais bizarro esse mundão, nem os bois podem mais, mercaptan. Fala Zénão como se passasse o paieiro para o outro canto da boca antes da cusparada.
- É cumpadi. - Pegando o clima fala Luis - Pena que faz uma daquelas escarradeiras de louça que nunca vimos faltar. Formando cuspe na boca. Como a minha vida seria outra se tivesse escarrado numa escarradeira de louça azul e branca. Se menino adorava o penico de ágata embaixo da cama de José Itaca.
- Onde ele jogava a urina que a bexiga não continha contida no bacio? Pergunta Zénão.
- No quintal. Babaca!
- Na horta. Jacu!
- No pé de couve. Bocó!
- Misturava o mijo com fumo e punha no machucado, um verdadeiro azeite de Zúbia. Pereba!
-E saía correndo e jogando bola pulando cerca roubando frutas do pomar do Léo
Léo pomar do Léo...
... Laranja lima[1][U1]
Cantarola o menino que não quer crescer, tudo com uma atadura no peito do pé prendendo o fumo com urina, um cheiro fantástico de cogumelos secos e tomilho, uma trufa branca. Trufa é mistura de mijo e cogumelos chilenos secos, pensa o homem saudoso do menino.
- Penso que não é só a chuva a urina que enchem o rio não. Fosse só isso, subiria de mansinho, mas o rio está subindo aos supetões!
- Não é o rio que sobe, é um rio que cai no rio. Diz Zénão. O Poeta relembrado.
O bar foi se enchendo, agora está lotado, o álcool sendo consumido, os olhares se conhecendo, as vozes falando alto para os ouvidos dos olhares conhecidos ouvirem, risos aumentados, pois a seriedade espanta e tudo cresceu tanto que o Deck parece a barca de Caronte.
- Rumo a felicidade! Diz um marujo. No que encosta um grupo à beira do balcão, acotovelam-se com Alcides Benevides e Alceu.
-E tar né veio! Fala um olhando para as filhas do seu Pavão.
-É mesm. Excelente! Véi ói a muiérr!
-Dá pra perrde umas hora! Fala o um novamente.
-Tomá uma véi?
-De boa! Mas se pá, arrasto na barca quela cadelaça.
- Vam bora véi pagá uma nesse buteco não!
-E tar mesm, pro Tênis que o coroa tem conta lá!
-Dêmôrô , só se for agora!
-Vambora.
E foram-se.
[U1] Primeira composição músical de Ecidão.
terça-feira, novembro 28, 2006
20. Cachaça não é agua não.
- O Atibaia está subindo ou é impressão minha?
- Também isso ai não é chuva, é tromba d’água. A água ficará maior que o rio. Responde Luis!
-Olha isso ai! Zénão espantado com o rio enchido. O rio subiu mais de metro. Chove amazonicamente como previsto. O Atibaia muito já encheu. É deslumbrante o volume d’água barrenta que desce. E mesmo um exímio remador subiria por essa água toda, dá mesmo gosto de ver, ainda que resulte numa mistura de medo e admiração, tamanha a força do rio. Parece uma escola de samba entrando na Sapucaí, ocupando todos os espaços, mas nem tudo é beleza, tem lixo. As sobras dos piqueniques que andavam subtraídas agora estão somadas. Quem terá bebido daquela garrafa de coca-cola de dois litros de plástico. Pareço o Luis tentando adivinhar de onde vêm os copos. Voltando a garrafa de pet cola que bóia com uma mensagem dentro onde o destinatário e o remetente é o mesmo. Eu! Você!
E uma gotinha simpática, transparente, destilada espatifa-se no untuoso águas-claras, foram-se os índios e os seus nomes às coisas permanecem ainda que tenham perdido, o sentido , a forma, a cor.
-E Laura que não volta! Diz Luis.
-É! E você sempre otimista.
-Que fazer?
-Descrê.
-Melhor é mudar de assunto.
-Mudado.
Luis não crê na pureza das intenções, acredita serem uma soma de sombras claras gerando uma mais escura.Como não fazemos filosofia, porque a filosofia descreve com palavras o que se pensa atrás do que se é ou se pensa ser, não os adornos ou fingimentos, fazemos letras e as musicamos onde a melodia e o ritmo completam a deficiência da letra expressadora do pensamento. Luis filosofa para seus rins, pâncreas e adjacências anais.
- Você está enganado penso que fizeram poesias. Diz Zénão.
- Quantos anagramas tênhêm...? Demanda Luis.
- No falo, No lofa, Fa lono, Lo fano, La fono e todas outras. Mas não é por ai!
- Olha o rio encheu mais. Refala Zénão.
- É capaz de chegar à terceira margem.
- Impressão tua! A terceira margem é para poucos.
- Um mineiro. Só é... diz Luis sem completar entrando no labirinto rio estufado rente profundo e insaído olhava não olhava de poder por mão não punha de tanto medo que não tinha de saber mesmo que nem era que descia ficado cheio ali à mão do rio não estendida sem querer levar de ficar ancorado ali nem me esquecia de tanta lembrança mais subia mais bulia comigo tirando margem pondo rio na deserta siliagem que plantei vida inteira pior que havia sem saber ele vive em si próprio quando entra igrejinha adentro pensando de fazer bondade até desanima de não ver a imbuia pensa os afogados fazem festa a ele ai se anima e enche mesmo sim e desborda.
- O álcool é que chega a terceira margem e chega e vaza. Diz Luiz em resposta a resposta de Zénão.
- E o álcool Luis?
- O álcool? Dou-me muito bem com. Ora domínios, ora dominado. Derruba-me, faz-me um bêbado que rasteja à sarjeta. Sempre uma relação discutível. Mas também tem o prazer da bebedeira, onde os contornos e arestas não são tão rígidos. Desobriga. Restando a brincadeira, a fantasia.
- Que fantasia? Se você só pensa na Laura?
- Não, esta é uma conseqüência da intertextualidade da fantasia, Laura é meu ponto de partida por sinal adorável, transformei-a numa jóia rara, dupla e maldosa.
- E a bebida em si?
- Sim o ritual, o copo de chope não é maravilhoso?
- Nem tanto!
- Então imagina uma pinga de salinas num copo pequeno cheio até a boca, ai você coloca uma palha de cana nesse líquido mergulhada sobrando uma parte para fora, então você faz uma oração assim. Óh granda filha da puta, granda patifa, marvada cana, que diante de mim volátil teimosa forma saliva na ponta e embaixo da língua que antes de ti beber já bebo e que neste infinito desejo qual reconheço minha impotência no resistir dou aos santos prego-lhe fogo na palha que você apagara com seu fogo a me incendiar. Que tal?
- Pode ser, há o fato de o padre erguer o cálice de vinho, tecer loas em latim, e bebe-o qual sangue de Jesus.
- Então por que não criar novos rituais, novos vícios, porque o tradicional, o antigo é bom? Se um dia remoto eram frescuras como bumbum de bebê?
- Quê! Olha o rio já subiu mais de metro. Zénão falando do rio enchido mais cheio.
Acho que Luis se irrita um tanto que não sei com a música. Penso que a música o impede de pensar livremente, não que creia em liberdade, ligando zonas de sentimentos até então abandonadas. E somado a isso um certo beatismo suspeito.
- Ah! a MPB!
- Esqueça a MPB, Luis, você não entende nada.
- Veja bem Zénão, o cara no fundo era pouco para ser filósofo, a gratuidade do talento inicial em nada avançou, senão que em direção de uma certa banalidade, excêntrica, que de partida fez corar seus reprimidos admiradores. Seja, ele não conseguiria sê-lo porque não consegue até hoje desvincular a produção do seu próprio daseim (gargalham), sua (dele) lavoura funciona como um bajulatório ensimesmado com o brilho da sua idéia, não sabia cantar, e nem tocar violão, mandioca cozida, Nescau e mais açúcar para a larica.
- Não, não e não! É mais que isso. Fala Zénão enfático e já de pé pronto pra ir a casinha.
- Eu sei. Esses caras já provaram para mim que cada um de nós tem a sua música, poesia, voz e toda infinidade de atividades que temos e as que ainda podemos inventar. Como não sabiam a canção praticada, não tinham a voz adequada e não sabiam tocar nenhum instrumento, inventaram o próprio modo de tocar, cantar e compor. Hoje já nos acostumamos com eles suas músicas e suas vozes. Disse Luis, querendo agradecer a Zénão.
- Redimido. Isto é criar. Deixe-me devolver este chope. Zénão sondando a bexiga.
- Isso mesmo Zénão, devemos reter o que nos pertence, o resto é do rio. Disse Luis, ouvindo uma música antiga cantada por W.C. que foi trilha sonora da puberdade num episódio digno de se contar, ainda mais que mexe tanto com Luis que o joga pescoço para trás arregala os olhos para o teto e vai girando lentamente a cabeça indo das gelosias passando pelo balcão chegando ao jambolãozeiro e ai deixando cair o queixo no colo. Saindo da somatória de probabilidades de um cérebro agindo só, tentando se livrar da música, de Alécio, de Alvinha, de Joana e do barro da terra roxa socado em meio aos dedos dos pés descalços em dias de não missa ou de subir em patíbulos a homenagear Tiradentes.
Enquanto isso no banheiro, Zénão espera alguém sair. Então (ele) esse alguém sai.
- Não existe nada melhor que uma bela duma mijada! Disse o que saiu.
- Ou eu não sei mijar ou você não sabe trepar! Disse Zénão.lembrando-se da piada do Chic’Oreia. No que o que saiu não achou graça. E Zénão dentro da casinha, lia um cartaz colado na porta, xiiiiiiiii, olha para o teto, xuaaaaaa, olha para ele, olha a espuma, bom também, olha, xuxiiii, mesmo bom, ble, blue, ploft, chacoalha. Junta as pernas separadas. Feche éclair...